quinta-feira, 25 de julho de 2013

"G"eometria





Deixa-me sentir-te estritamente paralelo
Enquanto encontras a hipotenusa com os catetos.
Mede a amplitude desse ângulo obtuso,
Acha o ponto G mexendo o cone entre os vértices.
Olha-me as abcissas. Aperta-me as ordenadas.
Deixa que o objeto penetre na imagem.
Sente o gemer dos pares derivar da tangência
Entre duas frações elevadas ao infinito!

terça-feira, 28 de maio de 2013

A memória em medos-luz


Nervosa.
As mãos frias tremem.
Suadas, transpiram e mal respiram. O coração bate. Acelerado, confuso. Quem espera desespera. E o desespero é impaciente: não sabe esperar! A qualquer minuto, vai chegar, entrar por aquela porta sem avisar, sem bater.
Medo.
O que é? Onde se sente? Na memória, na pele. No toque. Naquele cheiro e no sentir. Dei-lhe um nome: medo. E o medo sempre vem: nota 20 na assiduidade. Podia ter tido outro batismo, mas medo soube-me bem naquilo que soa tão mal. E eu espero, desesperada, o medo a chegar, quase a entrar, sem bater. E sem me ouvir.
Fujo.
Para onde o sol chega. Acaricia o meu corpo e eu deixo. Como uma pecadora que se entrega sem pensar. Não me custa nada, basta que eu seja e ali esteja para tudo se dar. Tudo acontecer. Corro para bem longe. Levanto voo de tanto correr, e de tanto rir. O calor do sol começa a ferver. Basto-me assim. E basto ser, para tudo se dar. Tudo acontecer. Sou feliz, sendo-me, sem pensar. Espreguiço-me para seguir o raio de sol, aproveitar o ângulo que o caixilho permite. É a minha felicidade palpável. A certeza de ser quem sou, quem sempre fui, longe, daqui bem longe. Desponta e começo a esticar-me nos desenhos feitos naquele chão com toda a felicidade dos abraços abertos, em que todo o meu corpo sorri. E fecho os olhos para no escuro guardar aquele raio de luz.
Barulho.
Ouço-o e acordo. Chegou, abre a porta, sem bater. A memória volta à pele, ao toque. Àquele cheiro. O medo não me ouve mas sabe-me de cor. Mesmo que eu falasse não me ouvia. E, com o medo, calo o vómito de olhá-lo. Estou deitada e acaricia-me o corpo, e eu deixo. Como uma pecadora que se entrega, mas que pensa. Toda a tremer, a suar, parece-me tão mal o que ao medo soa tão bem. Custa muito não me ser, que ali tudo se esteja a dar: tudo a acontecer. Caio do meu voo, desfaço o riso e gelo. Apagou-se o raio de sol, fugiram os desenhos quentes do chão. Ali, encolhida, de braços mal abertos, não sei de mim, sou ali o que não sei ser aquilo em lado nenhum. Fecho os olhos para a memória não me ver: e lembro-me do meu raio de luz.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma vénia


Tão bom sentir este barulho do esticar de ossos, esta sensação do músculo a romper, este "stretch" do sorriso a rasgar. 

Aplaudo esta tomada de consciência, este encontro de significado. Congratulo a nossa destreza na nossa condição de vida.

Ninguém quer ser perfeito (que aborrecimento!)

Ser o que é, basta-lhe.
É-lhe suficiente, pois é essa elevação imperfeita que o torna competente no acto da vida. É humano.
[e sabe-o imperfeito] 
Reconhece-se em si: nele, no homem, e nele mesmo. 
Ser isolado, preso na sua circunstância, faz com que não exista. Faz com que não seja pois não o é para mais ninguém se não o é, antes demais, para ele próprio. 

Uma vénia nos faço.
Aos que renascem. 
Aos que envelhecem e se libertam na maturidade. E não têm medo de Ser: assim, imperfeitos na perfeição.

Tal e qual como são.

Vivem! E sentem até à exaustão... Pois só assim vêem tudo o que olham, sem distinção.
E é por isso que querem! Anseiam! Porque sabem que quando os olhos se fecham, tão somente vêem com o coração.

Uma vénia nos faço.
Aos que, como eu, não têm medo de crescer. Que sorriem por cima do ombro e abafam o grito triste na lágrima que não caíu. 

Porque sorriu.

Aos que não têm nada a provar. Aos que sabem sorrir. Que sabem chorar...
Que sabem que somos uns entre os outros. E que todos somos únicos, quando juntos!
Sem cópias contrafeitas, nem imitações baratas. One of a kind, entre muitos.
Aos que sabem que assim, só por serem assim, aceitam a felicidade que lhes apraz. A felicidade que lhes serve e que lhes satisfaz.

Uma vénia nos faço.
E nos agradeço.
Do fundo do meu, do nosso coração.
Agradeço aos que somos mais felizes
Aos que somos, diria antes, afortunados.
Pois amamos sem reservas,
Sem receio das cicatrizes,
Tudo o que nos faz sentir amados!

domingo, 26 de maio de 2013

Até ao Infinito



"De que vale no mundo ser-se inteligente, ser-se artista, ser-se alguém, quando a felicidade é tão simples! Ela existe mais nos seres claros, simples, compreensíveis e por isso a tua noiva de dantes, vale talvez bem mais que a tua noiva de agora, apesar dos versos e de tudo o mais. Ela não seria exigente, eu sou-o muitíssimo. 

Preciso de toda a vida, de toda a alma, de todos os pensamentos do homem que me tiver. 
Preciso que ele viva mais da minha vida que da vida dele.
Preciso que ele me compreenda, que me adivinhe.
 A não ser assim, sou criatura para esquecer com a maior das friezas, das crueldades.

Eu tenho já feito sofrer tanto! Tenho sido tão má!
Tenho feito mal sem me importar porque quando não gosto... sou como as estátuas que são de mármore e não sentem."





da minha querida e imortal Florbela Espanca

terça-feira, 21 de maio de 2013

Orgia das palavras


Há esta urgência, esta necessidade de sentido...
Como se escrever fosse fazer amor com as palavras
Despir o que jamais ousou ser despido.
E o palpitar, o que se sente na pele,
Fosse a palavra ecoada naquele grito de mel,
O grito que não se contém
Que se desespera, despedaça também,
Na angústia do momento de grande tremer,
Da simbiose entre o gemido e o prazer!

E depois...

Depois fica a paz,
O gozo do espasmo.
Fica o grito do orgasmo,
O pensamento a que me entreguei,
A viagem que só eu sei.

O papel é o meu jazigo.
Maior fiel amigo onde deposito as ilusões defuntas.
As palavras que não se apagam
As sensações que adoçam o que os pensamentos amargam
Eu e elas, pela vida fora,
Sempre juntas!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quero mais

"Cada um tem aquilo que merece!"
Digo, com alguma frequência, esta sentença.
Eu sei que, por vezes, soa a injustiça.
Outras vezes transforma-se em ouro sobre azul.
Digo-o, porque o sinto. E, claro está, leio-o, e entendo-o. Porque ler é sentir e escrever é conseguir ler o que não se diz.
E escrever é fácil, -quem não escreve hoje?-
Basta atentarmos à literatura - e peço desculpa pela ofensa ao chamar-lhe de literatura - que nos circunda e ver que qualquer "coisa" serve para vender.
Qualquer coisa. Em qualquer lado. Por todo o lado, se escreve. Sobre tudo e sobre todos. Sem filtros, nem mordidelas na língua cheia de veneno.
Tudo escreve. Todos falam. E escrevem. Todos leem. E falam.
Mas será que sentem?
Escrever com a alma e coração... isso já não é para todos, não.
É preciso sentir e, mais do que sentir, viver.
Existir só, não chega.
É isto que faz dos tantos comuns: normais - existem porque respiram.
Se não respirassem, morriam.
Mas enquanto existem, não vivem.
Mas dizem que sentem.
Mal seria.
Sentem o frio, sentem o calor, falam da dor, falam do amor, sentem a picada da abelha, sentem a mordida da serpente, falam do ferrão e do veneno. Espalham-no.
Sentem o estalo na cara, e falam de injustiça.
Sentem a dor de cabeça e falam do peso de consciência.
Sentem o estado gripal e sentem os músculos a ressentir (-porque os músculos sentem sempre muitas vezes... como o coração).
Quem diz que nunca sentiu isto, mente!
Por isso toda a gente que existe, sente sim.
Sente muito. E fala depois. E escreve mais. 
Mas quem vive [porque existir só não lhe chega] sente de forma diferente.
Um sentir que dói e dá alento. Uma dor necessária para ser boa. Para ser bom.
Não é o corpo que sente: é a alma
- e esta ninguém a encontra na ponta dum bisturi.
Muitos nunca a viram porque não a encontraram.
E nem a procuram porque não a veem, não sentem.
"Secalhar", dizem com certezas absurdas,
"Não existe".
Mas ainda assim respiram...
E estão vivos, porque existem sempre, enquanto inspiram.
Mas há os outros. Os que vivem.
Porque não se limitam só a existir. Isso é muito redutor para as suas condições de vida.
E, aos poucos, vão transmitindo ao mundo este modo tão especial de viver!
Esta simbiose com o mundo, o baloiçar entre o dar e o receber...
Saber agradecer, perdoar.
É custosa, sim.
Mas, por isso, tão acremente doce.
As coisas fáceis não os cativam... Não os fazem pôr as garras de fora e transformarem-se em "bestas do sul"!
Selvagens.
Em fazer da vida uma savana e serem poderosos em todo o seu esplendor.
[Sermos]
E é assim que, sendo, vou vivendo.
E sentindo, vou falando.
Sempre escrevendo.
Espreguiçada, esticada, abusada e plena.
Provocadora. Protetora.
Sempre atenta. E à caça. Que nem felina.
E para leoa, leão basta.
Menos que isso não chega.

E como comecei, acabo:
Se cada um tem aquilo que merece:
Eu mereço-te!
Mas digo-te já:
...quero sempre mais!

Opacidade





 Quantas vezes guardamos as palavras, por ter cessado a boca o seu tom, depositadas nos nós da nossa pele queimada, secretas e sábias (sábias porque secretas), palavras de frases outrora escritas, sentidas nesse sentido do Tempo, ido, viajado, sem o sabor do amanhã?

E quantas vezes o olhar retoca, retoca sem ver, mudo, algures, perdido, no seio das palavras que ficam, proferidas pela metade, ditas como um dragão, expelidas, de meio sentido, de oportunidade alquebrada, ínsitas no momento e vãs fora dele? 

Que guelras de respiração ofegante! Contrição, coitadas, as palavras, no significado que se finou.

E finou-se lentamente no tempo que corre, caminhante de pernas longas e torso dobrado, rasgado por promessas de palavras vazias (quais?, se a língua que toca no dedo vira as páginas, uma por uma, no livro, seguro de sinopses opacas, de portas fechadas entre histórias cheias de nada?)
Só palavras, palavras que não voltam porque perdidas.