Digo, com alguma frequência, esta sentença.
Eu sei que, por vezes, soa a injustiça.
Outras vezes transforma-se em ouro sobre azul.
Digo-o, porque o sinto. E, claro está, leio-o, e entendo-o. Porque ler é sentir e escrever é conseguir ler o que não se diz.
E escrever é fácil, -quem não escreve hoje?-
Basta atentarmos à literatura - e peço desculpa pela ofensa ao chamar-lhe de literatura - que nos circunda e ver que qualquer "coisa" serve para vender.
Qualquer coisa. Em qualquer lado. Por todo o lado, se escreve. Sobre tudo e sobre todos. Sem filtros, nem mordidelas na língua cheia de veneno.
Tudo escreve. Todos falam. E escrevem. Todos leem. E falam.
Mas será que sentem?
Escrever com a alma e coração... isso já não é para todos, não.
É preciso sentir e, mais do que sentir, viver.
Existir só, não chega.
É isto que faz dos tantos comuns: normais - existem porque respiram.
Se não respirassem, morriam.
Mas enquanto existem, não vivem.
Mas dizem que sentem.
Mal seria.
Sentem o frio, sentem o calor, falam da dor, falam do amor, sentem a picada da abelha, sentem a mordida da serpente, falam do ferrão e do veneno. Espalham-no.
Sentem o estalo na cara, e falam de injustiça.
Sentem a dor de cabeça e falam do peso de consciência.
Sentem o estado gripal e sentem os músculos a ressentir (-porque os músculos sentem sempre muitas vezes... como o coração).
Quem diz que nunca sentiu isto, mente!
Por isso toda a gente que existe, sente sim.
Sente muito. E fala depois. E escreve mais.
Mas quem vive [porque existir só não lhe chega] sente de forma diferente.
Um sentir que dói e dá alento. Uma dor necessária para ser boa. Para ser bom.
Não é o corpo que sente: é a alma
- e esta ninguém a encontra na ponta dum bisturi.
Muitos nunca a viram porque não a encontraram.
E nem a procuram porque não a veem, não sentem.
"Secalhar", dizem com certezas absurdas,
"Não existe".
Mas ainda assim respiram...
E estão vivos, porque existem sempre, enquanto inspiram.
Mas há os outros. Os que vivem.
Porque não se limitam só a existir. Isso é muito redutor para as suas condições de vida.
E, aos poucos, vão transmitindo ao mundo este modo tão especial de viver!
Esta simbiose com o mundo, o baloiçar entre o dar e o receber...
Saber agradecer, perdoar.
É custosa, sim.
Mas, por isso, tão acremente doce.
As coisas fáceis não os cativam... Não os fazem pôr as garras de fora e transformarem-se em "bestas do sul"!
Selvagens.
Em fazer da vida uma savana e serem poderosos em todo o seu esplendor.
[Sermos]
E é assim que, sendo, vou vivendo.
E sentindo, vou falando.
Sempre escrevendo.
Espreguiçada, esticada, abusada e plena.
Provocadora. Protetora.
Sempre atenta. E à caça. Que nem felina.
E para leoa, leão basta.
Menos que isso não chega.
E como comecei, acabo:
Se cada um tem aquilo que merece:
Eu mereço-te!
Mas digo-te já:
...quero sempre mais!
