segunda-feira, 20 de maio de 2013

Opacidade





 Quantas vezes guardamos as palavras, por ter cessado a boca o seu tom, depositadas nos nós da nossa pele queimada, secretas e sábias (sábias porque secretas), palavras de frases outrora escritas, sentidas nesse sentido do Tempo, ido, viajado, sem o sabor do amanhã?

E quantas vezes o olhar retoca, retoca sem ver, mudo, algures, perdido, no seio das palavras que ficam, proferidas pela metade, ditas como um dragão, expelidas, de meio sentido, de oportunidade alquebrada, ínsitas no momento e vãs fora dele? 

Que guelras de respiração ofegante! Contrição, coitadas, as palavras, no significado que se finou.

E finou-se lentamente no tempo que corre, caminhante de pernas longas e torso dobrado, rasgado por promessas de palavras vazias (quais?, se a língua que toca no dedo vira as páginas, uma por uma, no livro, seguro de sinopses opacas, de portas fechadas entre histórias cheias de nada?)
Só palavras, palavras que não voltam porque perdidas.